Varginha compra um clube, mas o esporte de base já mora aqui há mais tempo


Nesta sexta-feira, Varginha ganhou um time de futebol pronto. O prefeito Leonardo Ciacci e o diretor Maycon Pereira assinaram o protocolo que muda de cidade a SAF do Itabirito: nova sede no Estádio Melão por vinte anos, nova camisa com o nome Minas do Sul, promessa de R$ 300 milhões em duas décadas e vaga garantida na elite do Mineiro. Naquela mesma semana, a nadadora Nicolly Ferreira foi convocada para a Seleção Mineira, rumo ao Troféu Chico Piscina, o mesmo torneio que revelou Gustavo Borges e Cesar Cielo. Um clube chegou de mala pronta; uma atleta formada em Varginha foi convocada. A cidade que aplaude a chegada devia primeiro reconhecer quem ela já formava sozinha, sem protocolo de intenções nenhum.

Vale reparar no desenho do protocolo: não há repasse de verba municipal ao Minas do Sul. A prefeitura entra com zeladoria das praças esportivas públicas, o clube entra com o projeto de R$ 300 milhões, e o Estádio Melão vira casa por vinte anos. É um protocolo bem desenhado para quem chega. Mas repare também no que não aparece em nenhuma cláusula: o custo de formar uma nadadora até o ponto de ela vestir a camisa de Minas Gerais. Nicolly Ferreira não assinou protocolo nenhum; foi convocada. E vai para Mococa disputar o Chico Piscina, torneio que já revelou Gustavo Borges e Cesar Cielo, sem estádio cedido nem vinte anos de contrato. O feminino profissional do Minas do Sul só entra na Série A em 2027. A diferença entre comprar estrutura e criar atleta é exatamente essa: uma se assina, a outra se treina.

Existe um caminho em que tudo dá certo. O Minas do Sul entra na elite do Mineiro, a cidade vira sede de clássico, e Varginha aparece no mapa do futebol mineiro com um estádio lotado e camisa nova nas vitrines do centro. O prefeito Ciacci corta a fita, o diretor Maycon Pereira apresenta o elenco, e o Melão ganha vinte anos de uso garantido. Nesse cenário, o dinheiro que a SAF promete investir sozinha, sem custar um tostão do orçamento municipal, financia estrutura que a cidade jamais bancaria com verba própria. É a versão otimista, e não é mentira: ela é possível.

Mas existe outro caminho. Time comprado não tem raiz, tem contrato. Se o Minas do Sul não performar, se o investimento de R$ 300 milhões não se traduzir em resultado dentro de duas ou três temporadas, o protocolo de intenções vira protocolo de saída, e o Estádio Melão fica com o eco de uma torcida que nunca chegou a nascer. E a base não é cláusula desse acordo. Foi zeladoria de praça pública, que é outra forma de dizer que ninguém investiu em gente, só em imóvel.

O argumento contrário merece ser levado a sério, não descartado por reflexo: trazer uma SAF profissional cria empregos diretos, movimenta comércio no entorno do Melão e dá a Varginha uma vitrine esportiva que o esporte de base, por mais talento que produza, não consegue sozinho. Nadadora nenhuma enche estádio. É verdade. Mas vitrine não é fundação. Emprego de clube que pode ir embora não substitui a formação de atletas que a cidade já tem. A cidade pode ter as duas coisas, mas só terá as duas se parar de tratar uma como manchete e a outra como rodapé.

O Minas do Sul vai jogar o Mineiro com camisa nova, estádio cedido por vinte anos e R$ 300 milhões projetados num protocolo de intenções. Nicolly Ferreira vai nadar em Mococa levando a tradição de Varginha na natação. Uma coisa é vitrine, a outra é fundação, e cidade nenhuma se sustenta admirando só a fachada. Que o Melão lote, que o Minas do Sul vença, tudo bem, mas se a próxima coletiva de imprensa não tiver o nome de uma nadadora, um lutador de base ou um time de bairro, é porque Varginha aprendeu a comprar resultado e esqueceu como se cria um.

Fontes

Esta coluna é reimpressa em extrato na Edição de Domingo do Varginha Connect (Ano I · nº 05), de 20/09/2026.

Coluna produzida por inteligência artificial, com edição da redação. Confirme as informações em outras fontes.


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