Vidas Secas: a palavra que Fabiano nunca aprendeu a dizer

Graciliano Ramos começou pelo nono capítulo e fez de um vaqueiro quase mudo o centro de um romance sem paisagem e sem enfeite.

Por J. Steinenberg, ombudsman do Varginha Connect · Vidas Secas, Graciliano Ramos, 1938, Romance
Xilogravura: a família de retirantes e a cachorra atravessando a caatinga
Ilustração original produzida com IA para o Varginha Connect.
Antes de ser livro, Vidas Secas foi um cachorro. Graciliano conta, no depoimento que deixou sobre a obra, que tudo começou na lembrança de um cão sacrificado na Maniçoba, e que o velho casal de vaqueiros da história nasceu do próprio avô e da própria avó do autor, os tios pequenos reduzidos a dois meninos sem nome. Esse detalhe de origem explica muito do que se lê depois: dos cinco personagens, só os filhos não têm nome, são apenas o menino mais velho e o menino mais novo. Fabiano, sinhá Vitória e a cadela Baleia têm, e não por acaso é a cadela quem, num dos capítulos mais ousados do livro, pensa com mais clareza. O autor foi claro sobre o método: fez o livro, em suas palavras, «sem paisagens, sem diálogos. E sem amor». E enumera o que deixou de fora: «tabaréus bem falantes, queimadas, cheias, poentes vermelhos, namoro de caboclos». Não há nada disso aqui. A família de Fabiano quase não fala. Comunica-se por sons guturais, por gestos, por uma língua reduzida a onomatopeias e interjeições, «Ecô! ecô!», «An!», o chape-chape das alpercatas na lama. Quando alguém tenta articular uma frase inteira, geralmente tropeça, se emenda, desiste. O diálogo, no sentido de troca ordenada de falas, é raro; o que domina é o discurso que fica dentro da cabeça de cada um, misturado, incompleto, interrompido por um medo antigo. É nesse silêncio que mora o drama da língua, e é aí que o livro se torna, para um leitor atento às palavras, algo mais que um retrato de miséria material. Fabiano admira as «palavras compridas e difíceis» da gente da cidade e, em particular, tenta imitar o falar de seu Tomás da bolandeira, o homem lido da região: truncando as palavras difíceis, convence-se de que está melhorando, até o narrador observar, irônico, que «um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo». A cena mais reveladora está na festa de Natal na cidade, tempos depois da surra e da noite na cadeia: encurralado pela própria raiva, Fabiano procura um insulto e não encontra, a língua «engrossava, perra». Quando afinal a palavra chega, não mira o soldado que o humilhou, mira a si mesmo e aos seus: «Cambada de cachorros.» A frase é cômica e é trágica ao mesmo tempo, porque nomeia com exatidão o lugar que ele próprio ocupa no mundo, e ele sabe disso, e a repete quase aliviado. Essa desconfiança nas próprias palavras tem contrapartida numa autoclassificação que atravessa o livro inteiro. Fabiano se chama de cabra, de bicho, de tatu, e a frase «Você é um bicho, Fabiano», dita a si mesmo como consolo e como orgulho, funciona como um refrão que só é abandonado, timidamente, quando ele imagina outro destino: «Um homem, Fabiano.» A oscilação entre as duas fórmulas, bicho e homem, não é ornamento psicológico, é o eixo do romance. Fabiano se afirma bicho porque bicho resiste à seca, ao patrão, ao soldado; e deseja ser homem porque homem tem palavra, tem direito, não apanha calado. O livro não resolve essa tensão, apenas a registra, capítulo após capítulo, com uma paciência quase clínica.
«O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos.»

Graciliano Ramos, Fuga
Xilogravura: a cachorra Baleia deitada, sonhando com preás
Baleia e os preás do sonho. Ilustração original produzida com IA.
A construção do romance reforça esse efeito de fragmento que se acumula sem pressa de conclusão. Graciliano não escreveu em ordem: começou pelo capítulo nono e foi voltando, o próprio depoimento traz as datas em que cada peça foi arrumada, de maio a outubro de 1937. O resultado é uma sucessão de núcleos quase independentes, cada um fechado em si mesmo, ligados por hábitos que se repetem, o cigarro de palha, os chocalhos, a cuia de água, o nó da cama de varas que sinhá Vitória nunca consegue trocar por um lastro de couro. É um romance que avança por obsessões recorrentes, não por enredo no sentido corrente, e isso é coerente com o material: gente que também vive de repetição, sem verbo no futuro. No meio dessa aridez deliberada, o capítulo dedicado a Baleia surpreende ainda hoje pela ousadia técnica. Graciliano entra na cabeça da cadela ferida, agonizante, e o que se lê ali é mais lúcido, em certo sentido, que os monólogos confusos dos humanos: Baleia lembra as obrigações, sente falta do cheiro dos donos, sonha com um mundo cheio de preás e com um Fabiano enorme. A opção de dar à cachorra uma interioridade mais organizada que a dos próprios personagens humanos não é sentimentalismo, é comentário: nesse mundo, também os bichos de estimação têm mais clareza sobre o próprio lugar do que os homens que os possuem. O capítulo do soldado amarelo é o ponto em que a violência contida do livro quase transborda. Fabiano encontra na catinga o mesmo soldado que o prendera na cidade, levanta o facão, está a um segundo de matá-lo, e o braço para sozinho, «bambo», antes de completar o gesto. O que se segue é uma longa negociação interna entre a vontade de vingança e o hábito da submissão, que termina, sintomaticamente, com Fabiano tirando o chapéu e ensinando o caminho ao homem que o humilhara, resumindo tudo numa fórmula que aceita sem discutir: «Governo é governo.» Não há heroísmo possível ali, só a mecânica antiga da obediência, e o livro não finge o contrário. O romance termina em fuga, mas não em chegada. A família deixa a fazenda morta, sonha com uma cidade onde os filhos irão à escola e serão diferentes dos pais, e o leitor sente, no ritmo cansado da última página, que esse sonho é também uma fórmula de sobrevivência, como a reza de sinhá Vitória ou o bicho que Fabiano diz ser. O narrador fecha o livro devolvendo os quatro à engrenagem maior que os produziu, o sertão que continuará mandando para a cidade gente como eles, forte e bruta, sem nome que fique. É um fim sem redenção e sem desespero puro, apenas a constatação seca de um ciclo que a chuva não resolve. Vale a pena reler Vidas Secas justamente pelo que ele recusa: a decoração do sertão, o diálogo bem talhado, o herói que se redime. Graciliano escolheu escrever com a mesma economia de quem sabe que cada palavra a mais é um luxo que a personagem não pode pagar. É literatura que se recusa a falar por quem não sabe falar, e por isso, paradoxalmente, dá àqueles quatro viventes e à cadela uma dignidade que nenhuma eloquência emprestada conseguiria.

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Volume 1 dos Clássicos do Varginha Connect. A edição traz o texto integral, com o Depoimento de Graciliano Ramos sobre Vidas Secas e os treze capítulos, prefácio de Bento Fólio, posfácio de J. Steinenberg, retrato e biografia do autor, nota do editor e glossário do sertão. Obra em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 2024 (Graciliano Ramos morreu em 1953; Lei 9.610/98, art. 41). Texto recomposto a partir de edição digital livre, com a ortografia atualizada que ela adota; nenhuma capa, ilustração ou projeto gráfico de edição anterior foi reproduzido. A nota do editor e o glossário foram preparados com o auxílio de inteligência artificial; as definições são as do dicionário de Cândido de Figueiredo (1913), em domínio público. Bento Fólio e J. Steinenberg são personagens do Varginha Connect criados com inteligência artificial; toda citação do ensaio foi conferida palavra por palavra contra o texto integral.