Nesta sexta-feira (7), no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, a campeã olímpica Rebeca Andrade cravou o Yurchenko com dupla pirueta (DTY) e tirou 14,800 pontos no Campeonato Brasileiro de Ginástica Artística — a maior nota de um salto no mundo em 2026. Ainda assim, ela não disputará a final do aparelho: pelo regulamento, são necessários dois saltos para concorrer à decisão individual, e a ginasta, junto às comissões da seleção brasileira e do Flamengo, optou por apresentar apenas um.

Uma nota para a história (com ressalvas)
A pontuação foi construída com 9,7 de execução, 5,0 de dificuldade do DTY e 0,1 de bonificação pela aterrissagem cravada. Com ela, Rebeca assume isolada a liderança da temporada no salto único — antes, dividia o topo com a japonesa Aiko Sugihara, ambas com 14,533.
Vale a ressalva: a ginástica artística não tem ranking oficial, já que os critérios de julgamento variam entre competições. A “maior nota do mundo” é a melhor marca registrada no recorte da temporada de 2026 — e é um fato: nenhuma ginasta tirou nota maior em salto único neste ano até agora.
O retorno de uma campeã
Depois de mais de um ano de pausa nas competições, Rebeca voltou em junho no Campeonato Pan-Americano, no Rio, e foi ouro no salto, com média de 14,549 (incluindo o bônus de 0,2 por apresentar entradas diferentes). No repertório, ela ainda guarda o Cheng (5,6 de dificuldade) e o Amanar (5,4) — os dois saltos da prata olímpica de Paris, atrás apenas de Simone Biles.
“Foi muito bom. Poder ajudar mesmo só com um aparelho foi maravilhoso” — Rebeca Andrade, sobre contribuir com o Flamengo na disputa por equipes.
A nota de Rebeca valeu para o clube, que se tornou hexacampeão consecutivo por equipes no Brasileiro. No individual geral, Flávia Saraiva conquistou o título inédito com um novo solo ao som de Ney Matogrosso e Luiz Gonzaga. As finais por aparelhos acontecem no fim de semana, com transmissão do sportv 2.
Por que abrir mão da final?
A decisão foi planejada: preservar a atleta de 27 anos e priorizar a preparação para o Mundial de Roterdã, entre 17 e 25 de outubro, primeira competição pré-olímpica do ciclo de Los Angeles 2028. Uma boa colocação por equipes garante a vaga antecipada na Olimpíada. “Controla, controla”, repetiu ela após o salto, admitindo o nervosismo de voltar a competir.
É uma escolha legítima de gestão de carreira — mas com custo: o público brasileiro não verá a maior nota do ano disputando a decisão do aparelho no próprio campeonato nacional. O mesmo peso que a tornou ídolo (competir sempre, em qualquer lugar) agora convive com a estratégia de um ciclo olímpico.
E Varginha com isso?
O exemplo de Rebeca ecoa na base: em Varginha, o Projeto de Ginástica Artística e Acrobática atende cerca de 150 pessoas gratuitamente, com aulas na Semel (bairro São Geraldo), sob coordenação da empreendedora cultural Daniela Borges Tavares, com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e apoio da Fundação Cultural e da Prefeitura. O projeto, que já passou de 10 anos, participa de competições estaduais como a Copa Gym e representa o município em campeonatos — mesmo sem instalações de alto rendimento.
O salto de 14,800 em Brasília é o topo de uma pirâmide que, em cidades como Varginha, ainda se constrói com projetos sociais, ginásios escolares e muito treino fora do horário nobre. A distância entre o DTY de Rebeca e a mureta onde crianças treinam na cidade é grande — mas é exatamente essa a distância que o projeto local tenta encurtar.

