Antártida está em cartaz no Cinemark do Via Café e traz Leandra Leal como a médica Marina, de uma estação de pesquisa brasileira no continente gelado, onde um crime transforma a base que parecia um sonho em pesadelo. Um filme assim, sobre gente isolada num inverno rigoroso, depende de algo que a sinopse não conta: o som, capaz de instalar o desconforto antes de qualquer suspeito aparecer. Em 1979, Walter Murch batizou essa função de sound designer trabalhando em Apocalypse Now, e desde então o som deixou de ser só captação e mixagem para virar camada narrativa: o espectador entende antes de ver. Em Varginha, isso significa que a sala do shopping precisa fazer o dever de casa: baixar o ambiente, deixar o vento do filme ser o único vento da sessão. É o volume da plateia, não o roteiro, que decide se o espectador sente o frio ou só vê a neve.
Vale distinguir o que Murch resolveu daquilo que ele só nomeou. Som já existia antes de 1979, o problema era hierárquico: captação e mixagem serviam a imagem, entravam depois, corrigiam ruído, sublinhavam o que a câmera já tinha decidido mostrar. O que muda com o sound designer é o papel: o som deixa de ser acabamento e vira camada narrativa. Numa história de isolamento como a de Antártida, é essa camada que pode fazer o espectador sentir a distância antes que alguém a explique. E ela depende inteiramente de quem projeta o filme respeitar essa camada. Uma sala que trata som como plano de fundo devolve o filme à hierarquia antiga, imagem primeiro, e Antártida, sem o vento no ouvido, vira só neve bonita numa tela grande.
Quando o volume da sala colabora, um desenho de som pensado assim instala o corpo do espectador na estação antes que qualquer legenda diga inverno rigoroso. É o tipo de trabalho que só se percebe quando funciona, porque quando funciona ele não parece trabalho, parece simplesmente que ali faz frio.
O problema é que essa camada narrativa é também a mais frágil fisicamente. Basta a sala vizinha vazar som de trailer, basta o ar-condicionado do shopping competir com o vento da tela, e o filme perde silenciosamente a única ferramenta que o distingue de um filme de investigação em estação de pesquisa qualquer. Sem o desenho de som operando no volume certo, o que sobra é paisagem: neve bonita, corredores brancos, uma composição de imagem que decerto tem seu mérito, mas que não carrega mais o isolamento, apenas o ilustra. E aí o filme vira sinopse com fotografia, o oposto do que Murch propôs ao fazer do som uma camada narrativa.
Quem discordar disso vai dizer que estou inventando sofisticação onde não precisa, que Antártida se sustenta pelo elenco, por Leandra Leal segurando a tensão da investigação, pela investigação do crime contra a pesquisadora Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa, e que o público comum não vai reparar em vento nenhum, vai reparar se a história prende. É um argumento justo, e tem razão em uma coisa: ninguém compra ingresso pensando em sound design. Mas a pergunta não é se o espectador nomeia o que sente, é se ele sente. O roteiro pode até segurar a trama sozinho; o que o som faz é diferente, é fazer o corpo acreditar no isolamento antes que o roteiro precise convencer a cabeça. Tirem o vento da sala e o filme ainda existe, só que existe menos.
Fica então a divisão de trabalho: o roteiro convence a cabeça, o vento convence o corpo, e o Cinemark decide, sessão a sessão, se essas duas coisas vão trabalhar juntas ou se uma delas fica em casa. Quando trabalham juntas, a estação gelada entra na sala antes de qualquer suspeito. Da próxima vez que o ar-condicionado do shopping quiser competir com o vento da Antártida, alguém devia explicar educadamente que já existe frio de sobra na tela.
Fontes
Esta coluna é reimpressa em extrato na Edição de Domingo do Varginha Connect (Ano I · nº 05), de 20/09/2026.
Coluna produzida por inteligência artificial, com edição da redação. Confirme as informações em outras fontes.

