Dom Casmurro explica o apelido, reconstrói a casa e conta a própria suspeita: o que o livro mostra e o que só o narrador afirma.
Por J. Steinenberg, ombudsman do Varginha Connect · Dom Casmurro, Machado de Assis, 1899, Romance
Ilustração original produzida com IA para o Varginha Connect: a cena do capítulo CXXXV, em que Bentinho assiste a Otelo.
O livro começa pelo apelido. “Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.” Quem escreve corrige, antes de ser lido, a palavra que o definiu, e logo em seguida confessa que o título saiu de um cochilo no trem. É um gesto pequeno e dá o método: o narrador define os termos, e o leitor entra na casa dele pela porta que ele escolheu.
No capítulo seguinte ele diz por que escreve. Vive só, com um criado, numa casa que mandou construir no Engenho Novo como cópia da casa de Matacavalos, onde se criou, até os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa nas paredes. Queria “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. O resultado ele mesmo registra: “Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.” A frase vale como instrução de leitura. Uma reconstrução pode ter o rosto idêntico e a fisionomia trocada, e o livro que vem a seguir é uma reconstrução.
A memória que sustenta a reconstrução tem falhas, e ele as admite. Na cena do muro, Capitu estava, no quintal vizinho, esburacando o muro, e o rapaz leu dois nomes abertos ao prego, “BENTO CAPITOLINA”. O narrador lamenta: “sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite”. Não houve nota. Houve o gesto de duas crianças e uma frase: “o muro falou por nós”. O que o leitor recebe, portanto, é a lembrança de um velho sobre o dia em que ninguém disse nada.
As digressões mostram o mesmo cuidado com o que se cola a quê. Nos capítulos nove e dez, o velho tenor Marcolini, que já não tinha voz, expõe a vida como uma ópera de que Deus é o poeta e Satanás o maestro, e no resumo que o narrador faz aparece a queixa de que “há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda”. É uma fábula sobre a letra e a música que não se ajustam. Mais adiante, no capítulo do soneto, Bentinho conta a história de “um soneto que nunca fiz”: no seminário, deitado, saiu-lhe um primeiro verso, depois o último, e o resto não veio, porque “o segundo não vinha, nem terceiro, nem quarto; não vinha nenhum”. Ele sabia como se fabrica um fecho: “imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura”. Quem forja a chave antes da fechadura conhece o ofício de chegar a uma conclusão e só depois procurar o que a sustente.
O mesmo vale para os olhos. No capítulo trinta e dois ele se lembra da definição que José Dias dera dos olhos de Capitu, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, e vai conferir: queria “ver se se podiam chamar assim”, e Capitu “deixou-se fitar e examinar”. A suspeita chega ao narrador emprestada de outra pessoa, e ele a trata desde o início como hipótese a verificar com os próprios olhos, que são os únicos que o livro nos permite acompanhar.
A semelhança, aliás, vem de longe. Quando Bentinho volta bacharel, a mãe pergunta ao irmão se ele é “a cara do pai”. O tio responde que sim, “tem alguma cousa, os olhos, a disposição do rosto”, e a mãe, olhando o filho, acha que “agora é muito mais”. Ninguém ali duvida de que o rosto diga quem a pessoa é. Quando esse critério voltar, no livro, nas mãos de quem já decidiu desconfiar, o leitor já terá visto a família funcionar assim: o parecido pesa como prova.
A noite do teatro é o centro do livro. “Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca”, e o narrador sai de lá com uma conclusão sobre quem deve morrer: “O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer.” Pensa em veneno, escreve uma carta, espera o café. Quando enfim fala com Capitu, é com poucas palavras: “Que não é meu filho.” E no capítulo seguinte, quando os dois olham para a fotografia de Escobar, é ele quem escreve: “a confusão dela fez-se confissão pura.” Confusão e confissão são palavras vizinhas, e quem decide em qual das duas a outra se converteu é o narrador.
O livro se fecha duas vezes. No último capítulo o narrador diz que o resto do livro é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta mudou naquela “por efeito de algum caso incidente”, e responde ao leitor: “se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca”. A frase serve a duas leituras: a de que a traição já estava na menina, e a de que se trata da mesma pessoa vista por quem decidiu desconfiar. Em seguida ele escreve: “qualquer que seja a solução, uma cousa fica”, e a cousa que fica é que a amiga e o amigo “acabassem juntando-se e enganando-me”. Quem afirma é sempre o mesmo narrador. “A terra lhes seja leve! Vamos à História dos subúrbios.” O assunto muda, e o processo se encerra sem a outra parte.
Leia de graça
Volume 3 dos Clássicos do Varginha Connect. A edição traz o texto integral, com a ortografia atualizada, prefácio de Bento Fólio, retrato e biografia do autor, nota do editor, glossário e este posfácio de J. Steinenberg.
Obra em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 1979 (Machado de Assis morreu em 1908; Lei 9.610/98, art. 41). Texto da edição H. Garnier (c. 1900), com a ortografia atualizada só por regras e dicionário, sem reescrita de palavras. A nota do editor e o glossário foram preparados com o auxílio de inteligência artificial; as definições são as do dicionário de Cândido de Figueiredo (1913), em domínio público. Bento Fólio e J. Steinenberg são personagens do Varginha Connect criados com inteligência artificial; toda citação deste ensaio foi conferida palavra por palavra contra o texto.